Marcella Maia: dos sinais de Brasília para o set de Mulher-Maravilha


Se você ainda não ouviu falar de Marcella Maia, prepare-se para escutar muito esse nome. Atriz e modelo transexual criada em Brasília e em meteórica carreira internacional, ela foi escalada para viver uma das amazonas do filme Mulher-Maravilha. De vendedora nos sinais de trânsito da capital federal para influencer com mais de 150 mil seguidores no Instagram, a vida da jovem dava uma série – e o piloto já está gravado.

Aos 7 anos de idade, Marcella veio para Brasília com a mãe, após o divórcio dos pais. Passou parte da infância no Setor de Chácaras Anhanguera, no Valparaíso II (em Goiás, região do Entorno), Cidade Jardins e Park Way. Aos 13, começou a trabalhar. Vendia balinha nos sinais de trânsito da capital e precisou abandonar a escola no primeiro ano do ensino médio.

Filha de família evangélica, fugiu de casa por não aceitarem que ela fosse como é. Debaixo do teto da mãe, precisava respeitar as regras. “Senti necessidade de ir à rua, buscar independência. Não queria viver a vida de estudar direito para passar em um concurso. Sempre me vi como artista”, afirma.

Muito artística e comunicativa, Marcella, que ainda se apresentava como Marcelo, teve destaque como ambulante. Um dia, no shopping Pátio Brasil, chamou atenção do olheiro da agência de modelos Mega. Foi recrutada para um teste. “Não rolou de ser modelo, mas me ligaram dois dias depois, chamando para trabalhar como olheiro. Três meses depois, consegui um job na assistência de direção”, lembra.

Marcella foi crescendo dentro da empresa e, por causa do emprego, passou a frequentar a alta sociedade brasiliense. Estava nos eventos de moda, em festas no Lago Sul. “Eram coisas patrocinadas e produzidas por heterossexuais, e o machismo está enraizado na nossa cultura. Isso é sistêmico, não julgo ninguém. Mas, em uma balada na casa do Romário [o senador], jogaram bebida no meu cabelo. Foi muito constrangedor, eu estava com os meus amigos. Ele me defendeu”, lembra.

A atriz já apanhou na rua por se vestir de mulher. Da primeira vez que saiu montada com os amigos, de salto, saia e peruca, chegou em casa às 6h da manhã. Divertiu-se muito por conseguir mostrar ao mundo como se sentia. Quando estavam voltando, um grupo de meninos começou a mexer com ela e os outros. Ao passar por um descampado, os agressores apertaram o passo.

“Arrastaram a gente para um milharal e nos deram uma surra. Tenho a cicatriz até hoje”, recorda.

Cansada do mundo da moda e decidida a voltar ao teatro, deixou a agência. Quando era mais nova, fazia parte dos grupos cênicos da Igreja Batista, e a alma artística pedia para retornar aos palcos. A avó dela morava em Juiz de Fora, e aos 18 anos Marcella resolveu passar um tempo em Minas Gerais.

Completou o ensino médio em um supletivo, voltou a estudar teatro e conheceu um homem suíço mais velho que a levou para passar três meses em Zurique. “Eu não conseguia mais ficar naquele corpo e ele não aceitou, então voltei. Comecei colocando silicone. Me reprimi muito tempo por causa da família, da Igreja e de como essa decisão mudaria minha vida. Porém, decidi fazer a transição sozinha. É uma escolha pessoal e intransferível”, explica.

Aos 20 anos, embarcou para a Tailândia e passou pela operação de mudança de sexo. Voltou para Brasília como realmente nasceu: Marcella. Após passar três anos sem falar com a mãe, a primeira reação da matriarca foi se aproximar e compreender a filha. “Era isso ou me perder. Já tínhamos nos desencontrado muitas vezes por falta de entendimento”, conta. Brasília foi o destino, por ter medo de não conseguir emprego e saber que as portas da Mega Models estavam abertas.

Apesar do trabalho certo, aquela vida não era mais suficiente – queria estar longe daquilo. Foi assumindo uma postura mais fashionista e, assim, chamando atenção das pessoas da agência. Um dia, precisou substituir uma modelo em um ensaio no qual só usariam suas pernas. Começou a fotografar e sentiu gosto pela coisa, apesar de ser muito baixa para as passarelas (ela tem 1,73m).

Quando a identidade externa feminina casou com a mulher que já vivia dentro dela, Marcella fez algumas fotos e as mandou a um booker internacional. Partiu para uma temporada na Turquia, onde ficou dois meses e participou de dois ensaios. “Foi um fiasco em relação a trabalho, fiquei decepcionada e frustrada, mas aprendi muito com a experiência. Meu manager conseguiu uma pequena agência em Milão e, apesar de ser um mercado muito competitivo, achei uma boa oportunidade”, lembra.

Trabalhou em dois lugares ao mesmo tempo, enquanto participava de castings, até conseguir ser contratada para uma propaganda de cosméticos. Cortaram o cabelo da modelo bem curtinho. “Aquilo era o oposto do que eu construía como feminilidade, a gente aprende que é bater cabelo. Entendi que o comprimento das madeixas não me definia como mulher”, ensina.

A partir daí, as coisas começaram a acontecer. Conseguiu trabalhos na Versace, desfilou na Semana de Moda de Milão, fez campanhas pequenas, fotografou para a Vogue Itália, participou de um clipe da cantora Fergie (veja abaixo). Viajou muito: França, Alemanha, Inglaterra. Em Londres, sentiu-se abraçada, lembra. Lá conheceu o modelo Paul, apaixonou-se e fazia planos de casar. Moraram um ano juntos, até que as carreiras dos dois os afastaram e o relacionamento chegou ao fim.

Mais ou menos nessa época, surgiu a oportunidade de participar do filme da Mulher-Maravilha. A produção procurava mulheres guerreiras para o papel de amazonas, e Marcella foi escalada com base em uma foto e após entrevista on-line.

"Minha participação foi singela e apareci só em alguns momentos, mas foi maravilhoso. Tinha até meu próprio trailer dentro da Warner. Muito legal. É sensacional viver a experiência de estar em um grande set e ver o universo" Marcella Maia, atriz e modelo transexual sobre sua participação no filme Mulher-Maravilha

Até por isso, voltou ao Brasil. Morando em São Paulo, já engatou o papel protagonista do filme Todos Nós 5 Milhões, do cineasta Alexandre Mortágua, no qual vive uma mãe abandonada pelo pai da criança. O longa deve estrear na edição de 2018 do Festival de Brasília.

Ela conta que foi fácil interpretar uma mãe, por ter muita vontade constituir uma família. Pretende adotar e – quem sabe, no futuro – passar por um transplante de útero. Hoje, com 25 anos, o foco é a carreira. Segue participando de campanhas publicitárias, estudando teatro e sendo aluna do curso de preparação de elencos Fátima Toledo.

O mais interessante é que acabou de gravar o piloto de uma série coescrita por ela, sobre a própria vida. “Não posso falar muito, mas está lindo e incrível. Nunca pensei que minha história de vida ia se tornar cinema ou seriado”, diz. “Quando você passa fome ou dorme na rua, tem uma sede muito grande de vencer na vida. Tem que ser mil coisas, porque eu tenho medo de passar outra vez pelas dificuldades que eu passei. Faço meu melhor como pessoa e na minha estrada como artista, para evitar isso”, conclui a artista.

Fonte: Metrópolis

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